Após escândalo bilionário no INSS, Carlos Lupi deixa Ministério da Previdência sob pressão política e desgaste público
O ministro da Previdência Social, Carlos Lupi (PDT), pediu demissão do cargo nesta sexta-feira (2), em meio ao maior escândalo de fraudes da história recente do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS). A saída ocorre após a deflagração da operação “Sem Desconto”, que revelou um esquema de descontos indevidos em aposentadorias e pensões, com prejuízo estimado em mais de R$ 6 bilhões aos cofres públicos entre 2019 e 2024.
A fraude consistia na inclusão automática de beneficiários em associações e entidades de classe, sem consentimento, gerando cobranças mensais descontadas diretamente do benefício. Segundo a Polícia Federal, 11 entidades são investigadas por integrar o esquema, que envolvia falsificação de autorizações, falsos cadastros e cooptação de servidores. Pelo menos seis pessoas já foram presas, e cerca de R$ 1 bilhão em bens foi apreendido.
A crise se agravou com o afastamento do presidente do INSS, Alessandro Stefanutto, indicado por Lupi. Stefanutto era apontado como responsável por manter relações próximas com parte das entidades suspeitas e facilitar a manutenção do sistema que permitia os descontos. Internamente, a permanência de Stefanutto vinha sendo questionada desde 2023, mas só com a revelação pública do escândalo o governo federal decidiu intervir diretamente.
Carlos Lupi afirmou, em nota, que não teve participação no esquema e que sua saída tem como objetivo garantir a “isenção e lisura” das investigações. No entanto, a pressão política aumentou após o Planalto considerar a atuação do ministro insuficiente diante da gravidade das denúncias. A presença de aliados de Lupi, como José Avelino Pereira — o “Chinelo” — no Conselho Nacional da Previdência, também contribuiu para o desgaste. Chinelo já foi investigado por desvio de recursos em fundos previdenciários e responde a processos por irregularidades em convênios públicos.
A demissão de Lupi marca a segunda saída dele de um ministério sob denúncias. Em 2011, no governo Dilma Rousseff, o pedetista deixou o Ministério do Trabalho após acusações de favorecimento em contratos com ONGs. Agora, em novo episódio, Lupi volta a enfrentar desgaste ético em uma pasta sensível.
O presidente Lula aceitou o pedido de demissão e nomeou o então secretário-executivo Wolney Queiroz como novo ministro da Previdência. A expectativa do governo é que Wolney adote medidas rigorosas para reestruturar o sistema de descontos do INSS e recuperar os valores desviados.
A Controladoria-Geral da União (CGU), o Ministério Público Federal e a Polícia Federal atuarão em conjunto para aprofundar as investigações e prevenir novas fraudes. O governo também estuda mudanças na forma de autorização para descontos em folha, exigindo validação com biometria ou autenticação digital.
Com a saída de Lupi, o governo tenta virar a página de um escândalo que abalou a confiança pública no sistema previdenciário e colocou em xeque a fiscalização sobre entidades que operam com recursos sensíveis da população mais vulnerável.
(Foto: Foto: Zeca Ribeiro/Câmara dos Deputados)
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